O evento integrou a 44ª Jornada Nacional de Inovação da Indústria, etapa estadual, realizada em Manaus
Os empresários ainda não sabem onde buscar as oportunidades para implementar a inovação nos seus negócios. A avaliação é da consultora da ABGi Brasil, Tatiana Siqueira, que conduziu ontem (25) o workshop “Acesso ao Fomento à Inovação” no auditório do SENAI Amazonas. “A maior dor que a gente encontra é que eles não sabem onde buscar essas oportunidades. Poucas pessoas sabem que existem esses recursos e onde encontrá-los”, afirmou. Para a consultora, essa lacuna de informação compromete todas as etapas seguintes, como a elaboração de projetos e a organização documental.
O workshop fez parte da 44ª Jornada Nacional de Inovação da Indústria, etapa estadual, promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com correalização do Sistema FIEAM e Sebrae Amazonas.

Tatiane explicou que existem diferentes modalidades de apoio, como subvenção econômica — recurso que não precisa ser devolvido —, crédito subsidiado e programas de bolsas para inserção de talentos nas empresas. As subvenções são as mais procuradas, justamente por não exigirem reembolso, mas também são mais concorridas e exigem projetos bem estruturados.
A consultora destacou ainda a importância de parcerias com universidades e centros de pesquisa, lembrando que a legislação brasileira vem facilitando esses acordos, inclusive quanto à propriedade intelectual. “A legislação tem feito de tudo para facilitar essas parcerias. Hoje é possível desenvolver um projeto com uma universidade e negociar a propriedade intelectual”, explicou.
Outro ponto abordado foi o nível de maturidade tecnológica dos projetos (TRL), demonstrando que é justamente nas fases intermediárias — quando a ideia sai do papel e começa a ser testada — que os riscos aumentam e, consequentemente, a necessidade de apoio financeiro é maior. Para mudar a realidade atual, Tatiane defende mais divulgação, capacitação e aproximação entre empresários e os atores do ecossistema de inovação.
Picolé amazônico
Entre os participantes do workshop estava o empresário haitiano Abdías Dolce, sócio proprietário da empresa Picollere Sabores Gelados, juntamente com Paulo Dantas e do gerente Roberto D’angelo.
Com quase 15 anos em Manaus, Abdías está à frente da fábrica há um ano. Localizada no bairro da Paz, a empresa já conta com 10 funcionários fixos, mais prestadores de serviço, e mais de 30 freezers distribuídos em mercadinhos e supermercados. A marca também atende restaurantes, escolas, eventos, empresas do Distrito Industrial e vende por plataformas digitais.
O diferencial está nos produtos. “Nós fazemos 90% do que as outras fábricas fazem, mas temos 10% que é diferente”, explicou. Entre as criações exclusivas está o picolé detox, feito com produtos como couve e gengibre, e o “Branquela”, um picolé de açaí com cobertura branca, feita com leite ninho, inspirado no filme “As Branquelas”.
A estratégia agora é ampliar a utilização de insumos amazônicos e reduzir a dependência de produtos de fora do Estado, agregando valor regional e identidade amazônica à marca.
Para Abdías, participar do workshop vai além da busca por recursos financeiros. “Quando você para de aprender, você está morto. A nossa fábrica é nova, precisamos aprender muito, respeitar normas e colocar a empresa no nível que queremos chegar”, afirmou. Ele destaca que, com acesso a fomento, pretende ampliar a estrutura, gerar mais empregos e investir em inovação nos processos produtivos.
Inovação com estratégia
Em outro workshop, “Gestão da Inovação”, a consultora Fernanda Elisa D’Assunção reforçou que inovar não significa apenas criar algo totalmente novo, mas também melhorar processos internos e organizar a empresa de forma estratégica. “Não precisa ser algo grandioso. A inovação pode estar na melhoria de processos, na organização dos dados, na forma como eu atendo meu cliente”, explicou.
Ela destacou que um dos principais entraves é a cultura imediatista. Muitos empresários estão focados apenas na sobrevivência do dia a dia e têm dificuldade de enxergar a inovação como estratégia de médio e longo prazo. “Inovar requer tempo, energia e visão de futuro. Se eu só penso no agora, eu acabo bloqueando esse processo”, afirmou.
Fernanda apresentou conceitos como funil de inovação, pipeline, portfólio de projetos e critérios de priorização. Cada empresa deve definir o que priorizar: urgência de cliente, alinhamento estratégico, viabilidade técnica ou impacto financeiro. Também abordou a importância da organização de dados básicos — vendas, defeitos, desempenho de produtos — como base para decisões mais assertivas.
Outro ponto relevante foi a desmistificação da ideia de que inovação é exclusividade de grandes empresas ou apenas de especialistas. Para ela, a inovação precisa envolver toda a equipe, criando um ambiente em que colaboradores possam sugerir melhorias e participar da construção de soluções.
Olhar institucional e regional

Para a gerente de desenvolvimento e negócios da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão e Interiorização do IFAM (FAEPI), Matilde Monteiro, o evento foi estratégico para ampliar o mapeamento de oportunidades e acompanhar as tendências dos editais voltados à região Norte. “Foi falado sobre a importância de acompanhar prazos, entender o nível de maturidade exigido e as estratégias específicas para cada região. Isso nos ajuda a direcionar melhor nossos projetos”, afirmou.
Ela destacou que a fundação atua há 25 anos apoiando instituições e que atualmente tem intensificado o acompanhamento de editais e mecanismos como Lei de Informática e Lei do Bem, fortalecendo a ponte entre pesquisa, inovação e setor produtivo.
Inovação na saúde pública

A farmacêutica Bruna Monteiro, chefe da Unidade de Gestão da Pesquisa do Hospital Universitário Getúlio Vargas, disse que o evento foi uma oportunidade estratégica para alinhar instituições públicas às demandas do mercado e fortalecer o ecossistema regional.
“A relevância do evento é extraordinária, principalmente na disseminação da cultura de inovação. A Amazônia é um campo fértil para inovação, mas precisamos alinhar os atores envolvidos”, destacou.
Bruna afirmou que, embora a instituição seja pública, acompanha os movimentos da indústria e do comércio, pois esses impactos refletem diretamente na área da saúde. O hospital integra a rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) e possui setor específico para pesquisa e inovação tecnológica em saúde.
Para ela, o momento atual já não é mais de convencimento sobre a importância da inovação, mas de implementação prática. “Acho que agora estamos na fase do ‘como fazer’. Como estruturar processos que tragam resultados concretos em inovação”, concluiu.
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